Numa destas noites frias de inverno, na cidade de Porto Alegre, numa esquina sombria de um bairro boêmio eu caminhava. Queria estar sozinha, precisava da ausência. Sem vozes, sem cantarolas, sem amigas, sem ninguém. Eu, a noite, o frio e as ruas vazias. Um casaco preto e alguns botões dialogavam comigo, o vento inquieto daquela noite solitária também.
Numa esquina, fui surprendida por uma criança que vinha ao meu encontro de blusinha de malha, sem fraldas e descalça naquela noite tão fria. Vinha correndo e sorria de braços abertos como quem pedisse colo. Peguei a menina no colo e a abracei como quem abraça a vida. Por frações de segundos tudo fazia sentido: o silêncio, o frio, a solidão e o abraço. Encantei-me com a vida novamente e desejei levar aquela menina para casa, vesti-la de branquinho e ir correndo de Porto Alegre para Niterói como quem brinca de pique-esconde. Mas ao levantar os olhos a mãe da menina estava atrás com as fraldas e um casaquinho na mão. Era uma mãe moradora de rua com seus oito filhos dormindo numa esquina da fria Porto Alegre.
Ainda com a menina no colo puxei conversa com a mãe e me aproximei do “ninho” que a mãe havia feito para a pernoite das crianças. Alguns cobertores, jornais, colchonetes e umas vasilhas de sopa que haviam sido distribuídas por religiosos.
A mãe pegou a menina do meu colo e aninhou-a num pedacinho do colchonete. Perguntei o nome da criança: Lara! Tirei uma das muitas blusas que vestia embaixo do casaco e deixei com Lara.
Doce Lara! Ao amanhecer busquei a família pelas ruas de Porto Alegre e nada encontrei. Buscava ofercer algo, alguma coisa qualquer. Mas mal sabia eu que fora Lara que me ofereceu lampejos de vida naquelo abraço intenso.
E a vida voltou a fazer sentido…